• Davi Junior

Os Cavaleiros do Zodíaco na Netflix: nem tudo está perdido



No dia 8 de dezembro, durante o painel da Netflix na Comic Con Experience - CCXP no Brasil (uhull!) foi divulgado em primeira mão o primeiro trailer do novo anime d'Os Cavaleiros do Zodíaco em 3DCG (computação gráfica que simula três dimensões) produzido pela Toei Animation com exclusividade para o serviço de streaming. Logo após o painel, o vídeo foi divulgado para todo o mundo por meio do canal do YouTube da Netflix, que você pode conferir abaixo:


Com data de estreia para 2019, e intitulado Os Cavaleiros do Zodíaco - Saint Seiya, o novo anime recontará a história clássica dos guerreiros de Atena em sua luta contra o mal, abordando nos 13 primeiros episódios a fase contra os Cavaleiros Negros e o início das lutas contra os Cavaleiros de prata.

A direção ficou a cargo de Yoshiharu Ashino (japonês que também dirigiu o anime de ThunderCats) e o roteiro produzido por Eugene Son (americano, responsável pelas animações de Vingadores Assemble e Ultimate Spiderman).

Se antes o que era geral entre os fãs era a ansiedade por algum trailer, após a sua exibição o que mais se viu entre os ardorosos de Seiya e os outros foi a frustração, raiva e decepção com o material apresentado pela Netflix. Levantei aqui os pontos mais polêmicos para analisarmos quais as vantagens (por favor, deixe nos comentários o que achou também) e desvantagens das escolhas de roteiro do novo anime:

Shun de Andrômeda agora é uma garota e se chama Shaun

Se na hora de assistir ao trailer você achou que tinha algo errado quando não ouviu a voz de Ulisses Bezerra na única fala que Shun de Andrômeda tem no trailer, você não estava errado. Sim, Shun de Andrômeda agora é uma mulher e se chama Shaun!


Tal fato levantou tanta polêmica que a conta do Twitter do roteirista Eugene Son foi bombardeado na madrugada de sábado para domingo e a hashtag #shun virou trending topic.

A explicação oficial dada por ele é que conceitos de Saint Seiya precisavam ser adaptados para atualizar o novo anime. Segundo ele, nos anos 80 era comum ver histórias de cinco homens protegendo uma garota, mas hoje, com o empoderamento feminino em alta, uma história sem uma protagonista feminina teria pouca aceitação de mercado.

Ainda segundo Eugene Son, foi pensado colocar uma sexta integrante no grupo de heróis, mas estava fora de cogitação baixar a patente de Marin ou Shina e acreditaram que "inventar" uma nova personagem não teria peso suficiente na trama. Por isso, optaram por transformar Shun em Shaun, já que ele sempre foi o personagem mais sensível.

Pessoalmente, acredito que essa foi a solução mais preguiçosa que poderiam ter escolhido, pois Shun de Andrômeda sempre foi um dos personagens mais interessantes de toda a série justamente por ser um homem.

É muito comum em materiais oriundos do Japão vermos histórias com protagonistas andróginos, visto que esse é um tipo de visual muito recorrente no país há décadas. Visto de um ponto de vista ocidental, personagens como Shun, Kurama e Kurapika podem ser confundidos como afeminados, gays ou "menininhas", devido aos seu comportamento tímido e muitas vezes sensível, ganhando um ponto muito interessante a ser discutido com crianças, jovens e adultos: a quebra de esteriótipos.


Pegue uma turma de meninos com menos de 10 anos e veja elas brincando de Cavaleiros do Zodíaco: aquela que escolher ser o Shun logo vai ser chamado de mulherzinha. Os estereótipos são pressupostos sobre determinadas pessoas ou coisas, muitas vezes, tão inseridos em uma sociedade que não se percebe ela, como no caso do exemplo com as crianças.

Pegue uma lista com os principais heróis homens de uma série americana clássica e você terá dez personagens musculosos, corajosos e com discursos viris. Pegue uma lista com os personagens principais de Cavaleiros do Zodíaco e você terá uma lista extremamente heterogênea, com múltiplas personalidades, riquíssimas na exploração de sentimentos e identidades.

As vestimentas rosas, o comportamento chorão e o sacrifício que Shun faz por diversas vezes na série abre margem para que o personagem seja alvo de chacotas e piadas machistas de um ponto de vista preconceituoso e/ou homofóbico. A oportunidade ideal para pais e educadores mostrarem à jovens e crianças que o "visual" de ninguém deve ser motivo para julgar o que ela é.

Os Cavaleiros do Zodíaco é o tipo de história que forma caráter. Análogo à situações do dia-a-dia, a narrativa vai apresentando ao expectador conflitos que refletem o que ele mesmo passa, e os valores que os heróis escolhem inspiram o comportamento de bem.

Assim, mesmo sem pais ou educadores discutindo o comportamento de Shun, pessoas que se identificam com o personagem podem ver exemplos de situações em que o homem tímido que prefere evitar uma batalha ter que assumir situações de protagonismo onde seus atos fazem a diferença, novamente inspirando bons valores ao espectador.

Sempre apoiei o fato de haver mais mulheres protagonistas em Saint Seiya. Inclusive, quando Milo foi transformada em uma mulher no filme A Lenda do Santuário, fui um dos que gostou da escolha, visto que a mudança além de não interferir na história, ainda acrescentou um contexto que enriqueceu o grupo dos doze cavaleiros de ouro.

Mas transformar Shun de Andrômeda em mulher foi a pior decisão possível, pois a série perde muito mais do que ganha com tal escolha. A impressão que dá, é que os produtores estão tentando fugir da discussão de haver um personagem andrógino quando tentarem emplacar Saint Seiya no mercado americano que, por vezes, já se mostrou extremamente difícil de aceitar personagens como Shun.

Cavaleiros atacados por mísseis.

"Peraí, você não disse que nem tudo estava perdido?" Sim, disse. Exatamente por isso que comecei com o exemplo do Shun. No item anterior não consigo ver nenhum argumento que abrande a decisão dos produtores. Mas Cavaleiros atacados por mísseis não é tão ruim quanto parece.


Se você é um fã das antigas de Seiya e os outros e já estudou um pouco de literatura luso-portuguesa, já deve ter notado (ou vai notar agora) alguns pontos onde a obra de Kurumada se aproxima muito da linguagem europeia, em especial três características: a mistura do sagrado com o profano do Barroco, a valorização da arte clássica grega do Neoclassicismo (ou Arcadismo) e a fuga para um cenário idealizado do Romantismo.

Em Os Cavaleiros do Zodíaco, elementos sagrados, como os deuses, entram em constante contato com elementos profanos, como a morte, o ódio e o terror das batalhas e guerras. Assim como na arte barroca.

Na história, os cavaleiros protegem uma deusa grega, uma boa parte dos locais onde se passam a história acontecem na Grécia e a inspiração para a grande maioria das origens dos personagens são oriundas da mitologia grega, como no Neoclassicismo.

Além disso, a história de passa nos dias atuais, repletos de tecnologia e modernidade. Mas os combates dos Cavaleiros de Atena são transportados para cenários idealizados, como o Santuário na Grécia, as gélidas terras de Asgard, o Templo Submarino de Poseidon ou o Inferno. Assim, como nas obras do Romantismo.

Mantendo essas três características, ou parte delas, você tem uma combinação muito forte dos conceitos básicos que formam o pano de fundo de Saint Seiya.

Tá, tá, tá. E o que tudo isso tem a ver com os mísseis que atacaram os cavaleiros?


Vocês devem se lembrar, logo no início da Saga do Santuário, de quando os cavaleiros de bronze perseguem os cavaleiros negros pelas ruas de Tóquio para recuperar as partes da armadura de Sagitário que foi roubada. Na mnha opinião, uma das sequências mais legais de se ver no início da série por fazer uma mistura de coisas do cotidiano com o fantástico que há nos poderes dos personagens (lembram da neve do Hyoga no alto dos edifícios?).

Esse é um ponto bem fora da curva em cavaleiros, uma parte da história em que os cenários não são idealizados, mas mistura do sagrado (a armadura idealizada na Guerra Galáctica) com o profano (roubar e esconder a armadura em um ambiente urbano), além de não alterar as origens de características gregas dos personagens.

O que eu estou querendo dizer com isso é que essa mistura de elementos modernos com o contexto clássico que temos da série podem ser uma mistura interessante para formar sequências como as do início da série, que quebram apenas uma das pernas da tríade de pano de fundo de Saint Seiya sem alterar os conceitos que temos da série.

Não que precise fazer isso para a série ficar boa, mas é interessante pensar numa narrativa que envolva cenários diferentes dos que estamos acostumados.

As diferenças das armaduras (elas já são as v3?)

Se pararmos para comparar as armaduras, vamos ver muitos traços de diversas fases delas, sobretudo da segunda (V2) e terceira versão (V3).


Visto que é bem possível que a investida da série tem como foco o mercado americano, é bem possível que as características mais modernas ou mais "cool" das versões das armaduras tenham sido mantidas para agradar esse público que, diferente dos europeus, asiáticos ou latino-americanos não tem uma memória afetivas com as primeiras versões das armaduras e seus capacetes nostálgicos.

Além disso, no trailer vimos que Seiya "desperta" sua armadura como no filme A Lenda do Santuário, jogando um pingente no chão.

É possível que algumas pesquisas tenham sido feitas ou avaliadas pelo público ou consultores americanos com os produtos mais novos da série, entre eles, o filme A lenda do Santuário e a série Ômega.

Acostumadas com histórias dinâmicas, é bem possível que tenham avaliado que as armaduras nas costas fossem trambolhos com os quais as crianças não iriam se afeiçoar tanto quanto os "cools" pingentes que podem virar um acessório para se tornar um produto depois.

No geral, isso não muda o "status quo" da história. As armaduras estão bem próximas de versões que já existiram (ou vocês preferiam aquele monte de jóias que tinham nas armaduras do Ômega) e mudar o "transporte" das armaduras não faz a série perder em contexto, até porque as caixas de pandora estão presentes, como mostrado logo no início do trailer.


Apesar de eu achar o máximo ver o Shiryu carregando duas urnas para ir consertar em Jamiel, possivelmente isso não seja tão interessante para a nova geração de espectadores americanos.

Lembrando que isso é só uma suposição minha. Pois se dependesse de mim, acredito que as urnas tinham muito mais chances de vender mochilas para crianças do que colares com tags. Enfim...

Cássius aparentemente se transforma em um Cavaleiro Negro.

Sim, eu também achei estranho aqueles cavaleiros negros parecendo soldados rasos de Final Fantasy, mas se eles cumprirem a função apenas de "sombras" do Ikki, não faz tanta diferença assim o visual deles, desde que a história seja bem contada.

O que mais impressionou foi a aparição de Cássius como, supostamente, um cavaleiro negro. Muitos fãs já estão alardeando que isso é ruim por motivo X e por motivo Y, mas acho que após ver o trailer, o momento ainda é o de por o pé no freio.

As imagens que foram liberadas apenas nos dão uma certeza: muita coisa do cânone será mudado. E é nesse ponto que o fã deve se perguntar até onde isso é importante para o novo anime.


Diferente de Sailor Moon Crystal ou de Hunter X Hunter de 2011, sempre ficou claro que a intenção deste anime nunca foi seguir a história original do mangá, mas contar a mesma história de um jeito diferente.

O novo anime terá Saint Seiya clássico como inspiração, mas não deve ser o parâmetro para os episódios. Visto isso, o que deve acontecer é o que já acontece em desenhos animados americanos: nenhum desenho do Batman segue os quadrinhos a risca, mas as histórias servem de inspiração para histórias similares, mas adequadas para uma mídia cujo público é outro, diferente dos quadrinhos.

Nesse contexto, já tivemos produções péssimas, como A Sombra do Batman, e ótimas, como Batman Animated Series. Lembrando que nessa última, tivemos a criação da Arlequina, que acabou migrando para os quadrinhos. Será que nessa onda toda não será uma oportunidade de vermos Cassius de um ponto de vista diferente da que estamos acostumados?

Ainda é cedo para julgar a história apenas pelo trailer. O melhor é cruzar os dedos e torcer para que o roteiro seja tão fluído quanto a animação, que está muito bonita.

O anime está muito infantil

E aqui chegamos num ponto fundamental para todos os fãs refletirem: Os Cavaleiros do Zodíaco da Netflix não foi feito para você!

Todas as grandes franquias que fazem milhões e milhões de dólares em todo o mundo tem múltiplos produtos e focos de vendas, se utilizando das mais diversas mídias para atrair os mais diversos públicos.


Tomando como exemplo Os Vingadores, temos as Graphic Novels para o público mais adulto, os quadrinhos para públicos mais novos, desenhos animados em anime para o público adolescente, desenhos animados em cartoon para crianças mais novas, OVA's para para adultos e filmes em longa-metragem para toda a família.

O principal produto é o filme da Marvel Studios, que todos (até a sua avó) se importam. Depois há todas as variantes cujos apenas algumas fatias desse bolo todo se envolve. Imagina uma criança dizendo ao pai que o Capitão América morreu em Avengers Assemble? O pai vai pensar "nossa, ele já morreu tantas vezes nos quadrinhos" e fim de papo.

No Japão, a estratégia sempre foi lançar uma série, sugar ao máximo todos os recursos que ela oferece e criar algo novo para substituí-la. Por isso tivemos intervalos tão grandes entre as produções de Dragon Ball e Sakura Card Captors e provavelmente nunca mais veremos algo novo de Bucky.

Aos poucos, a Toei Animation está aprendendo que o "modus operandi" que a Disney, Warner e tantas outras mega-empresas do entretenimento é muito mais efetivo para lucrar com muitos produtos em cima de marcas que nunca morrem ao invés de pulverizar produtos em marcas com ciclo de vida curto.

Nunca antes na história de Saint Seiya houveram três produções acontecendo ao mesmo tempo, sem contar a publicação de outros quatro mangás. Aliás, nunca antes na história de nenhuma franquia japonesa.


Por isso, sim, Os Cavaleiros do Zodíaco da Netflix tem um foco em um público infantil, possivelmente, para ser mais específico, com interesse em atingir o público infantil americano.

Creio que essa estratégia seja mais efetiva que a que tentaram com a série Ômega, onde miraram tanto no novo público novo quanto nos veteranos e acabaram não acertando em ninguém (ou alguém vai falar que ama Saint Seiya Ômega de paixão?).

É claro que os fãs de longa data podem (e vão) assistir a série da Netflix, mas creio que não devam levar tanto em consideração se a série não agradar tanto quanto poderia, pois nós não somos o público.

Creio que o que todos desejam que a nova série seja uma produção mais próxima do que é Dragon Ball Super para a franquia de Goku e cia, que conseguiu ser uma produção mais próxima do tipo "família", acertando mais quadrantes de público. Mas é possível que a Toei esteja utilizando Saint Seiya como um grande laboratório para suas próximas estratégias de mercado.

Analisando todo o cenário de anime, Saintia Shô deve ser um produto para o público veterano mais jovem, produção da Netflix seja voltado para as crianças e o live-action será o produto família. Enquanto que no mangá, Saintia Shô é para o público adolescente, Next Dimension e as Origins para o público veterano e Episódio G Assassino para o público adulto. Mas é só um palpite, futuramente seria interessante fazer uma análise mais profunda.

O que é nosso já está reservado. E vamos nos animar para que a série da Netflix exploda em todo o mundo, ascendendo o interesse da franquia no geral e fazendo novos fãs. Quanto mais gente interessada em Os Cavaleiros do Zodíaco, maiores as chances de vermos mais produtos nas lojas para comprar, mas séries sendo produzidas e mais Meteoros de Pégaso para nos emocionar novamente.


Comente o que você achou do trailer e diga o quão ansioso está para a próxima série. Independente do resultado, estou louco para ver algo novo logo!

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